Causos e Contos: Uma Referência ao Bom Humor



Causos e Contos: Uma Referência ao Bom Humor

Causos, nascem à beira do fogão a lenha. De preferência com a chapa cheio de pinhão. Ou em roda de chimarrão, que passa de mão em mão, ou a partir da segunda rodada daquela que desce redondo. Ou da branquinha maldita que rasga a goela nos happyhour de qualquer sexta feira.

Enquanto são esvaziados copos e cuias, se saboreia um nutritivo tubérculo como tira gosto. Então, alguém começa a narração de uma pequena passagem, uma pequena história ou estória, verídica ou floreada com dizeres regionais típicos, oriundos do jeito de falar do povo mais humilde deste imenso país.

 

Causos e Contos

Quem nasceu e até quem não nasceu entre as décadas de 40 e 50 em uma dessas longínquas cidadezinhas do interior do Brasil, sabe do rumo da prosa. Os personagens, na maioria das vezes são reais. Eles fazem parte do folclore da cidade, ali nasceram se criaram e foram os precursores dos causos. Por serem exclusivamente engraçados, os causos, permanecem na memória da comunidade e em qualquer reunião trivial são novamente narrados, provocando o riso descontraído. Eles contém uma singularidade marcante. Trazem os costumes e o sotaque peculiar do homem interiorano muito diferente conforme a região do país. Quem não reconhece pela fala um nordestino ou um gaúcho?

Assim, os causos formaram um universo de pequenas narrações que sempre ajudaram a manter o bom humor de um grupo enquanto reunido, com objetivo de descontrair. Ou para dissipar o stress e “soltar as bolinhas” da tensão do dia a dia, como dizem por aqui.

Na ocasião, alguém resolve tornar esses causos mais longos e mais interessantes, dando-lhes o status de conto. Adicionando ingredientes como fatalidade e tristeza, e eles  passam a compor a vasta modalidade de Literatura consagrada nos confins do Brasil.

Depois de passar pela música, pelo humor, causos consagrados por grandes artistas como Rolando Boldrin e Chico Anísio, com o famigerado "Pantaleão", chega com toda sua magia também aos Blogs.

É o caso do Tabuí e seus causos, escrito com maestria e talento por Eurico de Andrade. O profissional que labuta em uma das mais nobres atividades, a Agricultura, resolve assumir em definitivo uma das suas virtudes, e tornando-se blogueiro, reescreve causos disseminados pela sabedoria popular, transformando muitos deles em contos muito bem escritos. Cuja coletânea muito em breve pretende transformar em livro.

Para confirmar o que eu digo, transcrevo um dos seus “causos” postado em seu Blog:

Raimundo Barbeiro entra na agulha.

     Chegou dia de Raimundo Barbeiro tomar a vacina contra a gripe, à qual o povo dava o nome de vacina dos véio. Bem magrilim, foi animadim procurar a esposa, pensando em dar uma bisoiada na enfermeira loira do hospital.    

     – Muié, cadê minha cardeneta?

     – Tá na gaveta embadapia, home!

     Raimundo tinha as coisas em ordem. Na caderneta, as anotações com relação à sua saúde, da qual cuidava com todo o esmero. Na fila do arremedo de hospital que havia em Tabuí, nosso herói era amigo de quase todo mundo e batia papo com um e com outro enquanto esperava sua vez de entrar na agulha. Entrega sua caderneta pra uma moreninha de branco e fica de butuca esperando ela chamar seu nome. Niqui chega a hora, a moça olha pra ele com o rabo do olho e, parecendo assustada, comenta alguma coisa com a colega loira – a paixão do Raimundo. Olha pra ele de novo e faz um gesto de dúvida. Até que pergunta:

     – Foi aqui memo que o sinhô tomô a úrtima vacina?

     A pergunta aziou o Raimundo Barbeiro. Já tão creno que tô caduco! Isso é o que dá, botá aqui essas moça que nem sabe lê direito, pensou ele.

     – É craro que foi, uai! Causdiquê só vacino aqui, ô sá!

     – Como é memo o nome do sinhô?

     – É Remundo, muié! – respondeu ele, pronto para apelar.

     – Mas é c’aqui tá iscrito vacina anti-rábica e seu nome num é Sadan Houssein?!!!

     Raimundo baixou a cabeça, sem saber onde colocar a cara, tamanha a vergonha que passou, na frente da turma e vendo a enfermeira loirinha dar uma gargalhada. Só aí é que descobriu que pegara o documento na gaveta errada, a do cachorro. Sua desculpa, com sorriso amarelo, falando baixinho no ouvido da enfermeira moreninha, foi:

     – É a droga da minha muié, uai! Ela só apronta bagunça naquela casa, sô! 

Como disse José Saramago, "se o blog é um espaço para a reflexão, não deve surpreender que ilumine aquele que o escreve". Neste "causo", o Eurico propaga o bom humor, que a meu ver é uma virtude. E como tal deve ser cultivado.

Breve retorno sobre o assunto, falando de outro escritor e seus "causos". Refiro-me ao prezado amigo também blogueiro, Rui Morel, criador do Blog "Aprendendo por aí".

Imagem: Megamania

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Guaraci Celso Primo

Bacharel em Administração, ex-previdência e ex-BB. Obcecado pela verdade, com pretensão de ser útil de alguma forma. Criador e editor do Blog do Guara.

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6 Comentários em “Causos e Contos: Uma Referência ao Bom Humor”

  1. Guaraci, muito legal.
    Os mineiros são sensacionais. Ri muito com o “causo”, além do que me trouxe belas lembranças dos 13 dias de caminhada que fiz pelo interior de Minas, e nas conversas pude absorver um pouco da magia que guarda aquele povo rico em folclore, cultura e tradições.
    Legal mesmo. Grande abraço-Rui Morel

  2. Guaraci,
    Fiquei muito agradecido e sensibilizado pela sua idéia de escrever sobre o assunto “Causos” e me incluir no seu texto. Para mim isto significa uma grande homenagem e um ânimo para continuar meu trabalho. De fato, considero como uma obrigação eu coletar e escrever tantas e tão boas histórias/estórias que o povo conta. Só assim ajudo a evitar que se percam neste país onde há a supervalorização dos modismos provocados quase sempre pela mídia descomprometida com a cultura e onde essa cultura só é nivelada por baixo. Espero que daqui a muitos anos ainda o povo tenha causos pra contar e, se não os tiver, pelo manos alguns deixarei escritos. Parabéns pelo seu belo artigo e um grande abraço.

  3. Eu já tive o prazer de ler vários causos do Eurico Andrade e até já trocámos vários mails, com imagens das nossas familias.

    Sempre fui um admirador destas crónicas de Tabui e admiro muito este rapaz que, se não existisse, tinha de ser inventado !!!!

    Parabéns Eurico, por mais este trabalho que admirei e me deliciou ler.
    Você é um caso aparte na literatura brasileira !

    E aqui de Portugal, do cimo dos meus 83 anos, o abraço com muito carinho

    Mário de Portugal

  4. Uma homenagem muito justa e merecida ao meu amigo Eurico Andrade. Além de um grande narrador de causos, é uma pessoa despojada e com um grande coração aberto para receber os amigos.
    Escrevo para um site literário, o limacoelho, onde o Eurico também escreve. Criei uma personagem idosa, Dona Sarita e em duas histórias dela consultei o Eurico sobre a possibilidade de escrevermos a quatro mãos ou se eu pudesse fazer minha personagem interagir com personagens de Tabui. O Eurico não titubeou, não se fez de rogado e nem de estrelão. Dentro da simplicidade e receptividade mineira, logo aceitou o convite e pudemos produzir uma boa história.
    Publiquem mais causos do Eurico porque ninguém se cansa de os ler.
    Abração, amigo e parabéns pela homenagem recebida.

  5. Rui, Eurico, Mário e Ivette,
    Agradeço pelas manifestações. De minha parte continuarei a garimpar e ovacionar preciosas personalidades que encontro por esse imenso campo da Blogosfera. Meu pequeno espaço na grande rede será sempre para refletir as ações e valores de seres iluminados como vocês, e beneficiar o maior numero de pessoas possível.
    Um grande abraço pra vocês.

  6. Sempre acreditei no seu potencial, os comentários à seu respeito são nada mais que justos.Sempre me identifiquei com seus personagens, sabe do meu preferido: Morrer de Amor, choro todas as vezes que leio.Vôce não é só bom, vôce é demais.
    ABRAÇOS. LUZIA NUNES

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